DIÁLOGO SOBRE AS DIVISÕES DA ORATÓRIA de Marcus Tullius Cicero.



Queridos bibliófilos e queridas bibliófilas, você já precisou convencer alguém?


Aposto que sim. Por isso esse livro é relevante até hoje, pois a oratória é a arte do convencimento, a ciência da persuasão. E hoje vamos mostrar na prática como estruturar de forma simples um discurso e vou usar um conteúdo do Rick Chester.


DIÁLOGO SOBRE AS DIVISÕES DA ORATÓRIA FOI Escrito em 47 a.c. na Roma Antiga pelo político, advogado, escritor e filósofo Marcus Tullius Cicero, em forma de diálogo com seu filho Cicero Júnior.


Devo alertar que o livro é muito… pesado. Pesado não em gramas, pois o livro não deve ter 100 páginas, mas pesado intelectualmente! O livro é dividido em 40 capítulos bem curtos em que Cicero estrutura toda a arte da oratória. Sua fórmula é bem parecida com o que Aristóteles relatou em seu livro RETÓRICA. Certamente Cícero bebeu dessa fonte. Contudo, o livro possui uma diferença fundamental: o orador.


Cicero diz que a oratória se divide em três partes:


  • o talento do orador;

  • a composição do discurso e

  • o objeto do discurso.


A composição do discurso, principalmente o deliberativo, que é o que tenta convencer alguém a fazer algo, é bem parecido com a ideia de Aristóteles. Os dois dividem o discurso em 4 partes: prólogo (ou exórdio), narração, confirmação e epílogo (ou peroração). No vídeo sobre ARISTÓTELES vimos exatamente isto.


A parte da construção dos argumentos também é bem parecida. O ponto principal, a sustentação desse ponto por parte de imaginações e exemplos, a refutação de objeções e o gancho para o próximo ponto.


Mas então o que muda? O foco aqui recai sobre o orador. Sabe o que acho? Acho que Cícero era um cara mais prático. O cara era advogado, político, escritor, filósofo… ele estava o dia inteiro discursando. Já Aristóteles ficava mais no Liceu, pensando, desenvolvendo suas teorias. Penso que Aristóteles não deu o devido valor ao orador, pelo menos não como Cícero! Porque Aristóteles não considerava tão válido o orador querer levantar paixões, já Cícero acha fundamental que o orador, além de convencer, comovesse. Que ele convença através da razão E da emoção. Que use o cérebro e o coração. Pois, se o coração também ajuda na persuasão, por que não usá-lo?


A diferença fundamental está na primeira parte da obra: O TALENTO DA PALAVRA, ao que Cícero dá o nome de eloquência, dividida em cinco pontos:


  • clareza;

  • concisão;

  • naturalidade de estilo;

  • brilho e

  • encanto.


E à elocução fazem parte também


  • a voz;

  • o gesto;

  • a fisionomia e

  • a ação do próprio orador.


Acho que por isso Aristóteles não quis tocar nesse assunto… é muito subjetivo. O que Cícero quis dizer com brilho e encanto?


o brilho vem da escolha da nobreza dos termos, das metáforas, das hipérboles, epítetos, sinônimos e imagens. Pintar a imagem. Os olhos são os primeiros a serem seduzidos. A clareza nos faz compreender o discurso e o torna visível. E o encanto vem dos secretos movimentos da alma, os quais fazem o ouvinte amar o orador, quando ele os revela, manifestando os sentimentos de um coração nobre e generoso.

Secretos movimentos da alma, Cícero?


Tendo isso em vista, a primeira parte do discurso, o exórdio e a última, a peroração, além de convencer, elas devem comover, levantar sentimentos e paixões. O objetivo do início do discurso é emocionar, elevar os espíritos. Mostrar que há na sua causa um interesse comum, presente ou futuro.


Depois você passa à narração dos fatos, com concisão e brevidade. A narração dos fatos é a história que serve de base para a argumentação, é importante a veracidade e a especificidade.


No terceiro ponto do discurso entram os raciocínios e asserções. O Discurso deve ser simples, grave, tão forte de pensamentos quanto brilhante de estilo.


E por fim, na peroração você deve amplificar. Amplificar é argumentar com veemência. A amplificação fala ao coração. A linguagem da amplificação emprega as palavras derivadas, as compostas, as hipérboles, sobretudo, as metáforas, as frases curtas e destacadas.


Então… para exemplificar tudo isso, vou fazer um estudo de caso. Conversando com Juarez Soares, um espectador do canal, estava preocupado com vocês, queridos bibliófilos, pois talvez seja difícil visualizar a arte da Retórica na prática. Porque são termos que não temos costume em uma temática, a filosofia, que muita gente acha difícil. Mas não é! É só uma questão de contato.


Não vou pegar um discurso falado, pois senão ficaria muito longo, mas peguei algo que se assemelha a um discurso: um post do Instagram. Escolhi aqui Rick Chesther que emprega muito bem a técnica da oratória e vou provar para vocês que é bem legal entender como se estrutura um discurso.


Rick Chester é um palestrante motivacional e tem uma história bem legal. Já foi vendedor de água e hoje é um profissional das palavras. Vive para conversar com auditórios de pessoas a fim de fazê-las tomarem uma ação no futuro. É um cara que usa muito bem o discurso deliberativo.


Pra começar vamos falar sobre o arquétipo do Rick. Se você acompanha aqui o canal, fiz uma série sobre arquétipos e, como marca, Rick Chester está no arquétipo do Homem Comum. Então ele deve se comunicar de uma forma mais simples e direta, não tão rebuscada. Dividindo seu discurso em quatro partes, como salienta Cícero, vemos que na primeira, o exórdio, ele deve levantar emoções e chamar atenção. Para o homem comum, qual uma boa ferramenta para fazer isso? As Máximas. As máximas, como já diria Aristóteles, são pensamentos que estão inseridos na cultura e todos conhecem. Contudo, para quem não se insere nesse arquétipo, pode parecer meio piegas, meio conto do vovô, mas para o Rick funciona muito bem. Vamos ver:


*Exórdio*

*máxima* JAMAIS DIGA: DESSA ÁGUA EU NUNCA VOLTAREI A BEBER.

*Antecipação* Eu tenho orgulho de ter dentre minhas aptidões a profissão PEDREIRO. E jamais cuspirei neste prato.


*Narração*

*Ponto Principal 1* Primeiro por ser pedreiro, ser filho pedreiro e irmão de pedreiro, ou seja, *Argumento* essa profissão levou comida pra minha casa durante uma vida inteira.

*Ponto Principal 2* E segundo porque eu prefiro não subestimar o poder do Deus que sirvo, *argumento* pois este me deu e me tira na hora que quiser.


*Confirmação* - Aqui com raciocínios e asserções.

*raciocínio* Então tenho todo cuidado com mundo com o que tenho para que eu seja digno de continuar a ter e se possível até ampliar.

*asserção* Mas tenho também um amor à tudo aquilo que aprendi durante a vida e isso sempre estará aceso em minha pessoa.


*Peroração* - Parte final do discurso. Aqui, de acordo com Cícero, você tem que Amplificar. Usar os argumentos, mas com paixão. As figuras mais usadas aqui são a metáfora, que ele já começa com uma:

*metáfora* Esse papo de “foguete não tem ré”


E também para amplificar suficiente ao ponto de falar ao coração, Cícero nos diz que na peroração devemos usar figuras sublimes. Que podem ser imagens da natureza, como a grandeza da terra, o universo, a beleza de um pôr-do-sol (o que muitos gurus usam) ou, dentro de hábitos humanos, Cícero nos faz uma lista de 7 pontos que mais geram comoção. O primeiro deles, adivinha… Respeito aos Deuses. Então, Rick, como um arquétipo de homem comum, deve terminar falando de Deus e é isso o que ele faz.


*aplificação* Esse papo de “foguete não tem ré” é ousadia demais pra quem tem temor a Deus e conhece as voltas que o mundo dá.


E ainda usou mais uma máxima: O mundo dá voltas. As ferramentas usadas no exórdio, são as mesmas da peroração. E ele termina com uma recapitulação rápida, em forma de argumento.


*recapitulação* Então peguem essa visão e tomem muito cuidado ao pisotear ou desmerecer seu passado.

O discurso do Rick está perfeito.


Esse é um exemplo de estrutura de uma fala que se encaixa perfeitamente ao seu arquétipo. Se quiser, ele pode pegar isso e desenvolver uma palestra de duas horas.


Bom, espero que tenham gostado, eu gostei! O meu discurso está chegando na peroração. Se quisesse te convencer de algo, aqui teria que amplificar, apelar aos vossos corações. Mas não, quero apenas despertar o interesse desse conhecimento em você para que sua criação toque outras pessoas. Lembre-se, tudo começa com a sua verdade. Então vamos nos comprometer em fazer da nossa sociedade um lugar melhor, pois a argumentação mostra o que há de verdadeiro em você e inspira fraternalmente outros a também criarem seguindo seus corações.


Inscreva-se no canal, muito obrigado, boa sorte e até a próxima.


Valeu.


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